Tudo começou com uma parceria que parecia boa demais para ser deixada de lado. A Ferrari precisava de um veículo elétrico. A Apple tinha Sir Jony Ive e sua empresa, LoveFrom. Dois titãs do design colidindo? Claro, por que não. Ferrari e Apple compartilham uma obsessão específica com a aparência das coisas, não apenas com seu funcionamento. Ambas as marcas tropeçaram – lembra-se do Magic Mouse 2 ou da Ferrari California? – mas continuam sendo símbolos de desempenho máximo envolto em beleza.
No papel, essa colaboração parecia um código de trapaça.
“Recrutar talvez o maior designer de produtos de tecnologia… parece… ser uma espécie de atalho da indústria.”
O carro se chama Luce. Leve, em italiano. A ironia não é sutil aqui. O nome sugere iluminação, mas o Luce esclarece principalmente uma falha fatal na fusão dos princípios de design automotivo e tecnológico.
Dentro versus Fora
Entre na cabine. Funciona. LoveFrom aplicou a lógica da indústria tecnológica para tratar cada elemento interior como um produto independente. Os controles táteis voltam ao alcance do motorista. É uma refutação contundente aos carros modernos que apenas colocam iPads nos painéis. Toques retrô, como mostradores circulares, combinam-se com detalhes em alumínio. Parece caro. Parece certo.
Saia. Algo dá errado.
A influência da Apple sequestra a silhueta. Proporções de esquilo? Clássico Ive. A única Ferrari que sobrou está nas luzes traseiras estilo F355. Tire os distintivos dessa coisa e você saberia que era de Maranello? Provavelmente não. A Ferrari evoluiu visualmente desde o Daytona ou o 360, claro, mas os seus carros sempre foram instantaneamente reconhecíveis. A Luce parece uma nave espacial que caiu em um showroom.
Parece que LoveFrom ignorou totalmente o design tradicional do carro. Eles trataram o exterior como o chassi de um smartphone. Uma concha. Um recipiente para proteger a interface do usuário interna.
Para quem você está projetando?
Talvez essa lógica seja válida se você pensar que os carros são apenas salas de estar móveis. Isso não acontece.
A Ferrari não vende transporte. Você já tem uma Honda. Você já tem outros três carros que te levam do ponto A ao ponto B. Você compra uma Ferrari pelo coração. Você compra porque as linhas atingem você de maneira diferente de qualquer outra coisa.
Pense nas paredes do quarto. Não painéis internos. Exteriores. O design exterior das Ferraris inspirou gerações de entusiastas, inclusive eu. O mais próximo que a maioria das pessoas chegará de dirigir um é ficar na calçada olhando para ele. Se o exterior parecer um case de tablet caro, você perde o sonho.
Você compra um iPhone para rolar o apocalipse e fazer ligações. Você compra uma Ferrari porque suas outras opções não fazem seu coração disparar.
O mercado decide
A Luce trata o carro como um eletrodoméstico de luxo. Reduz um objeto de pura paixão a um gadget. Isso é bom para um laptop. É mortal para uma marca de supercarros.
Os investidores notaram. As ações da Ferrari despencaram após a revelação. Eles sabem. Nós sabemos. Tentar transformar uma Ferrari em uma peça elegante de eletrônicos de consumo perde todo o sentido do que torna a marca valiosa.
Então ficamos com um lindo interior em uma caixa confusa. Está limpo. É futurista. É seguro.
Parece uma Ferrari?
